Crumbianas

Eu não estou engordando. Estou me tornando um Picasso. Bom, acho melhor eu explicar essa frase, porque assim, crua, vai dar margem a outras interpretações.

Um artista atinge seu grau de maturação quando domina todas as técnicas e todas as formas. É quando não há mais mistério em delinear a figura humana tal qual ela é, em detalhes e perfeição. Simplesmente ele não pensa mais: “como é que eu desenho aquele pé?” A partir daí é só desconstrução. Ele muda as formas, brinca com elas, subverte a ordem, pra passar sua mensagem. E não foi só no cubismo, na pintura, que isso ocorreu. Em todas as artes a recorrência é grande. O artista só pode mexer com liberdade e autoridade naquilo que domina. Se bem que atualmente a gente vê tanta gente distorcendo as formas antes de conseguir dominá-las…

Não que meu corpo tenha sido uma obra de arte, mas é que meu passado atleta me dava músculos e formas aceitáveis, esteticamente falando. Apenas estou, depois que parei com as atividades esportivas e físicas, modificando meu layout. Distorcendo para melhor expressar meu pensamento glutão. É a minha voracidade frente ao mundo sendo demonstrada. Duvido que algum outro gordo tenha pensado nessa desculpa. Vou guardar esse texto e mostrar ao meu médico na próxima vez.

E não é só em mim que essa arte transformadora se manifesta. A imagem do início deste post é uma das obras mais famosas de um colombiano que admiro: Fernando Botero. O cara resolveu pintar os corpos das suas personagens de maneira arredondada, gordinha. Com influências notadamente renascentistas, ele dava a suas figuras formas nada convencionais, fazendo-as invadir toda a tela, todo o espaço da pintura com os corpos avantajados de seus homens e mulheres. E isso já no século 20, numa era ditatorial na adoração às formas mais esbeltas. Uma outra referência gráfica que tenho desde minha infância é Robert Crumb. Acho que foi na MAD que vi os primeiros desenhos dele. Eu poderia recorrer ao Google pra me dizer se ele já foi publicado pela revista, mas não tenho saco pra isso. Fico com minhas memórias. Se não foi na MAD, deveria. Crumb é o desenhista perfeito para as crônicas de um Bukovski, por exemplo; desenho sujo, underground, sarcástico e contestador. As mulheres desenhadas por Crumb são fortes, generosas, chegando a botar medo num cara menos avisado, ou mais delicado.

Com essa nova filosofia estética de apreciar a distorção e opulência da vida, venho percebendo que meus parâmetros mudaram. De uns anos pra cá, simpatizo pelas formas mais “crumbianas” numa mulher. As mais generosas têm me seduzido. Se antes a adoração era apenas pelos desenhos e pinturas de Crumb e Botero, agora a apreciação se torna real, física mesmo. Mulheres com um “design mais arrojado” talvez me passem a imagem de mais preparadas para as dificuldades da vida (dizem por aí que 2012 promete…). Ou então eu me sinto mais protegido por elas. Ou apenas busco um encaixe perfeito entre nossas formas. Ou esses dois caras, ao desenhar suas mulheres com tanta tinta, passem a mensagem de que sim, precisamos acabar com essa ditadura do magro, do ideal irrealizável. Que precisamos abrir nossas cabeças a outras abordagens estéticas. Que o belo está na diferença e na variedade das formas. Expandir esse universo é expandir a mente que, ao contrário do corpo, como já disseram, jamais retorna ao estado anterior depois de ampliada.

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Este texto foi originalmente publicado no site Papo de Gordo, em 14/11/2009.

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1 comentário

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Uma resposta para “Crumbianas

  1. Adorei e nunca tinha pensado sob esse ângulo (seu médico vai adorar). Mesmo sendo a típica “magra de ruim”, concordo com você. Na verdade, acho que é tudo uma questão de nascer no século certo (se eu tivesse nascido na Renascença, estava sem marido até agira…ehehe).

    Ainda bem que hoje tem espaço para quem segue as regras e para quem as quebra; assim o mundo fica muito mais interessante 😉

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