Tempo de lamento

Quando chega ao fim um podcast, lamentamos. É um projeto que termina, por mil razões que nem se podem enumerar aqui. É triste. Mas sabemos que no fundo a ideia ainda está ali, latente. É quase como um período de descanso, uma pausa. Por mais que nunca volte, a possibilidade de retorno nos conforta.
Quando um podcaster chega ao fim é diferente. A ideia não está mais latente. Não é mais uma pausa. Não há a possibilidade de retorno.
Não sei das circunstancias de sua morte, se deixa filhos. Não fui atrás dos detalhes. Sei o que li e sei o que senti ao saber da noticia. É curioso isso, de se importar com alguém que não se conhece fisicamente. O podcast tem isso de nos aproximar, nos unir pela afinidade. E é então que nos sentimos amigos, companheiros, solidários.

Dias atrás, durante a gravação de um podcast, cheguei a achar que estava exagerando em minhas angústias com o tempo e de como ele é carrasco ao ditar o ritmo de nossas vidas modernas. Cheguei a pensar que eu talvez estivesse supervalorizando o tempo e sua tirania. Mas coisas assim, de surpresa, sem aviso, me levam novamente a pensar no tirano. No tempo que o Lucas ainda achava que tinha para os projetos que intentava realizar, nos planos que fazia para, sei lá, daqui a um ano. Um tempo que não existe. Que nunca existiu.

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Meu peito

Primeiro dia de natação (depois de 12 anos parado) e a professora me diz:
– Ricardo, agora quero ver seu peito.
Juro que pensei em mil piadas como resposta, mas não podia dizê-las. Faltava a intimidade necessária. Aí me controlei e fui mostrar como era meu nado estilo peito.
Ao final, mais uma pérola:
– Ricardo, seu peito é ótimo.
(E eu ali, tenso, me segurando…)

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Propagandas baianas dos anos 80

Por puro saudosismo fiz uma coletânea de comerciais baianos dos anos oitenta. Aconteceu de cair-me nas mãos uma fita VHS falando da propaganda baiana e sua produção do final dos anos setenta aos começo dos noventa. Catei algumas coisas que marcaram minha infância e adolescência.

A conversão de VHS para DVD e posteriormente para um formato com menos resolução – para facilitar a transferência pro YouTube consumiu um par de dias. Ainda há muito mais de onde isso tudo saiu. Com mais tempo, mostro o restante.

Comerciais do Shopping Barra:

  • O Shopping Barra abriu suas portas ao público no dia 16 de novembro de 1987. Para muitos, um acontecimento. Para adolescentes rebeldes e inimigos do capitalismo consumista, uma afronta. Mas o diacho da música marcou minha juventude (cantarolo até hoje). Um mar de ombreiras, mullets, neon e calças bag embalado pelo jingle que é uma ode ao consumo. Anos oitenta na veia!

  • Anúncio de abertura do Shopping Barra, em Salvador, 1987. Nos manequins “vivos” eu percebo uma referência aos replicantes de Blade Runner (ou tudo era assim, meio new wave, nos anos 80?).

Outros comerciais que eu gostava eram aqueles das Óticas Ernesto. Aqui vão dois: um mais famoso, com a música do Tom Jobim e Vinicius; e outro de 1982, com a presença do Zico, ídolo maior na época.

A Telebahia tinha um comercial lento, arrastado (mas justificado pela idéia) que eu achava (na época) muito criativo. Só mais velho vim saber que a garota era a Giuliana Gam, novinha.

Um comercial imobiliário tem tudo pra ser chato. Mas esse era diferente: uma garota respondendo sensualmente às perguntas de Paulo César Pereio. Veja a pérola:

O Jornal A Tarde se valeu da figura do Vadinho (personagem do José Wilker na obra de Jorge Amado “Dona Flor e Seus Dois Maridos), que havia estado nos cinemas anos antes e criou esse comercial “tosco” sobre um malandro andando pela Salvador antiga. O menino gritando “Leia, leia A Tarde” era insuportável já naquela época.

Havia uma rede de lojas de móveis e eletrodomésticos em Salvador chamada Tio Correa. Nas compras por lá a gente ganhava bandeiras pra torcer pela Seleção na Copa de 82. Eu lembro de ver mais bandeiras do Tio Correa nas janelas e varandas das casas do que as bandeiras nacionais. Deveriam ser reeditadas por alguém.

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Não dá pra falar de todos aqui. Veja outros comerciais antigos que estão no meu canal do YouTube.

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Seu Olvídio

Mensurei três segundos. Foi o tempo exato em que ele ficou me olhando nos olhos, tentando lembrar de onde me conhecia. Aí então deu de ombros e continuou seu caminho pela calçada afora, apressado.

Pensando bem, não sei se era seu Olvídio mesmo. Seria alguém parecido com ele?

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Dona Fascínia e sua amiga inseparável

Há tanto tempo não me visitavam que eu achei até que já haviam morrido. Mas não é que as duas apareceram outro dia, juntas, como nunca mais as vira? Dona Fascínia trouxe a tiracolo sua amiga Dopamina. Fizeram-me agradável visita numa tarde, voltaram na noite seguinte e se foram. Mas deixaram um perfume no ar, que se espalhou e depois foi assentando devagar, como cinzas numa quarta-feira. De vez em quando encontro uns restinhos pelos cantos da casa; mas deixo lá quietos, não quero varrer.

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A caligrafia do Aleluia

A imagem acima é mais do que simbólica. É a minha versão da obra Aleluia da banda Cascadura.

Vou explicar. Quando Fábio Cascadura veio me contar do novo disco (duplo) que estava gravando e me convidou para fazer a direção de arte, eu vi nas palavras dele a realização de uma ideia que já vinha sendo maturada há tempos. Mas não sabia como ela estava sendo realizada. Então, eu não tinha muita referência a não ser o painel grafitado por Izolag e Ananda e algumas incursões minhas ao estúdio de andre t, quando presenciei algumas sessões de gravação. Mas a ideia toda era para mim um grande rascunho.

Tempos depois a banda publicou a primeira música do disco, Colombo. Aquela rabeca (espécie de violino rústico medieval) que abre a canção foi o mote necessário para guiar parte do meu trabalho. O disco fala da cidade de Salvador, suas origens,  suas idiossincrasias. E assim seria difícil deixar de relatar a convivência entre o velho e o novo, a cidade histórica e a cidade moderna. Decidi, então, que trataria todo o texto dos disco, incluindo letras e fichas técnicas, da forma mais antiga que eu possuía: tinta e pena caligráfica de metal. Transcreveria todo o texto à mão. Os ajustes de imagem, a parte digital (não se pode mais fugir dela) e arte-final seriam feitas com outra caneta:  a da minha mesa digitalizadora.

E é isso: fiz a  foto para mostrar a pena caligráfica de metal, de raízes medievais (*) e a caneta digital, lado a lado. Ambas conviveram muito bem durante todo o trabalho. Nem sempre exatamente como eu queria. Nem sempre exatamente como (eu achava que) deveria ser, mas sempre deixando uma sensação de dever cumprido, de realização. E, confesso, apaixonei-me ao final. Assim como Salvador. Assim como o Aleluia.

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(*) a pena feita de pena de animal mesmo data dos séculos 600-1700. As penas que usei, de metal, evoluídas a partir das primeiras, com pontas quadradas ou não, ganharam relevância no começo do século 19, com ranhuras e saliências que facilitaram o acúmulo de tinta em seus corpos metálicos, aumentando a duração e o comprimento do traço.

O disco Aleuia pode ser baixado gratuitamente aqui, com parte do material gráfico. O disco físico tem previsão de lançamento para julho de 2012.

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Sentamos, eu e Catarina, lado a lado numa lanchonete, cada um com seu sanduíche. Aí mostrei o meu hamburgão pra ela e disse:

– Olha, Cat, isso aqui no meio é uma pimenta. É gostosa, mas arde …!

– Arde pra caralho?

Silêncio. Congelei olhando pra frente, pro nada, pro vazio. Parecia que todo o shopping tinha paralisado também.

Calmamente, fui me virando para a pequena de seis anos de idade pra perguntar de onde saíra aquele vocabulário. Ela também estava imóvel, olhando pro mesmo nada que eu olhara segundos antes. Perguntei:

– Ardendo PRA QUÊ?

– Ardendo pra caramba…

Aí começamos a rir, os dois. Ela sabia que falara algo que não devia. E sabia que eu sabia. Depois das risadas nos concentramos novamente nos sanduíches. Aí fui perguntar onde ela tinha ouvido aquela palavra:

– Você ouviu isso na escola, né? Com seus amiguinhos, não foi?

– Isso o quê? Eu só disse “caramba”.

– Tá bom, então. Já percebi que você entendeu.

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