Texto curto para um amor idem

Ela chega. E os seus olhos cansados, seus ombros caídos, seus passos arrastados denunciam a passagem de mais um dia. Como se não bastassem tantos sinais, seu murmúrio e um arremedo de palavrão ao tentar colocar a bolsa e outros pertences sobre a mesa – e deixando cair alguns – são arremates do anunciado. A casa toda sente sua presença e pulsa através dela. Como se as paredes, as portas, janelas, móveis, tudo deixasse de ser para vê-la. O tempo parece parar, tal a gravidade do momento. Mas só tomo consciência do peso de mais esse dia no toque dos seus lábios quando me beijam, de leve. Parecem pedir socorro. Parecem pedir distância. Parecem suplicar a ajuda que mais quero dar. Dirige-se ao banheiro e vai deixando o rastro de roupas pelo caminho. Cato-as uma a uma, sentindo seu perfume e chego a achar que até as roupas estão mais pesadas. Barulho de chuveiro. Seu corpo quente em água morna. Não diz nada, apenas ensaboa-se devagarzinho, dá pra ver pela porta entreaberta. Sento-me na cama e observo, quase escondido. Suas roupas ainda estão em minhas mãos, em meu colo. Ela desliza o sabonete pelo corpo como quem se massageia. E parece sentir mais prazer do que eu poderia esperar presenciar. Alisa e pára em determinados pontos que conheço bem. Brinca com a espuma e então o vidro do box se enche de pequenos desenhos. Isso dificulta um pouco minha observação, mas consigo ver que ela pára, fica imóvel debaixo d´água, como quem espera que seus problemas escoem pelo ralo junto com a espuma do sabonete e do shampoo. É tudo muito calmo. A não ser pelo barulho da água, o mundo todo está em silêncio. Ela se abaixa e permanece um bom tempo nessa posição. Começa a separar os fios de cabelo que foram pegos pelo ralo. Coloca-os num canto, para depois esquecer de retirá-los. Seu corpo quente vai esfriando aos poucos. Suas roupas no meu colo parecem mais leves. Ela desliga o chuveiro. Apanha a toalha e enxuga primeiro o rosto, depois todo o resto, detendo-se, vez por outra, em alguns desvãos. Joga a cabeça pra trás, descrevendo um arco de respingos no ar, que termina em suas costas. Enrola-se na toalha e entra no quarto. Vem em minha direção, pega suas roupas e joga-as novamente no chão. Abre um sorriso e seu rosto se ilumina. Ela diz meu nome, deita na cama, coloca a cabeça no meu colo e fecha os olhos. Aliso seus cabelos ainda úmidos, brinco com as gotinhas de água no seu ombro e, ainda calado, beijo suavemente sua boca.

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O amor

 

ze e gurisPhoto©Marta Pruska

 

Não caia na tentação fácil de descrever o amor pelo viés romântico. Ensinaram-te errado.

É muito mais forte do que qualquer beijo no mais tórrido filme de cinema. Muito mais significativo do que qualquer enlace matrimonial em final de novela. Está além do “eu te amo” em canções de rádio.

O amor não tem medida.

Ou melhor tem: ele é além. Ele está depois do que imaginas.

O amor está no beijo carinhoso do pai num filho.

O amor é tão singelo que te surpreende numa foto que não precisa de cor, numa cena que não precisa de legenda.

O amor é cotidiano.

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“A língua é o chicote do corpo”

 

lingua
Não sei quem cunhou a frase,nem vou ao Google procurar saber. Não importa. Mas é de tal modo ferina a afirmação, que vou aconselhar: ao pronunciá-la, faça-o pausadamente, com ênfase em “chicote”. Por favor.

A internet está recheada de “instant karma” (vá ver no YouTube – mas não me agradeça por isso), de “turn down for what”  (ok, me agradeça por isso) e de “fails” (agradece? não sei…), que a gente acha até graça quando a já tão gasta citação “feitiço vira contra o feiticeiro” surge por detrás de uma nuvem de realidade, tal qual um ninja revelador.

Não vou dar conselhos, meu currículo é péssimo pra isso. Não vou censurar ninguém, meu currículo também não me ajudaria aqui. Muito menos viria aqui chicotear alguma coisa – vai que levo uma bordoada da própria língua… Só lembrei da frase-título porque a reouvi num antigo podcast.

Aos que acharem qualquer referência aos atuais acontecimentos sócio-políticos, aviso logo: não tive intenção. O espaço e a paciência aqui são curtos para discutir política.

Vim mesmo só como espectador, ver como andam as coisas, dar uma massageada toráxica no blog, trocar suas fraldas. Visitinha rápida.

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Atualizando

Olá, meu caro Eduardo Sales

Para acabar com todos os males

Estas poucas linhas lhe dedico

Para ver se no Blogroll eu fico.

 

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Robertão

Depois da enfermeira passar uns bons 10 minutos com a agulha enfiada no meu braço catando uma artéria pra coleta de sangue, pedi a ela pra desistir.
E ela catucando daqui, catucando dali, já impaciente.
– É sério, minha senhora. Pare. Está doendo.
– Doendo? Em uma escala de 1 a 10 quanto está doendo? (enfermeira adora isso)
– Quinze.
Ela tirou a agulha. Contrariada, mas tirou.
Aí, virou-se lá pra dentro do hospital e gritou:
– Robertão! Ô, Robertão! Venha cá!
Perguntei se o Robertão era outro enfermeiro.
– Não… Robertão é o segurança do hospital. Ele vai esmurrar sua cara e quando o senhor começar a sangrar, eu colho o sangue nesse potinho aqui.
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(Não foi bem assim… mas faltou pouco. Quando ela quase ia chamar o Robertão, sugeri que pegasse uma veia da minha mão. Acatou) Continuar lendo

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Catarina sendo trollada…

Catarina sendo trollada...

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28/05/2014 · 11:19

Duas histórias com índios

Imagem

Dia do índio? Tenho duas histórias:
A primeira ocorreu quando viajei com o filho de um cacique, que queria ser cantor. Percorremos várias locações pelo estado do Pará a fim de realizarmos um ensaio fotográfico para o material de divulgação e capa do futuro disco. A convivência com aquele índio trouxe-me algumas pitadas de sua sabedoria (pautada na simplicidade), fazendo-me repensar alguns valores. Não vou me estender, mas reconhecer aquela sabedoria num cara tão mais novo foi uma descoberta chocante e, ao mesmo tempo, reconfortante.
Pensei: temos uma história ancestral e esses valores precisariam ser repassados.

A segunda história aconteceu em uma viagem próximo a Tucuruí, sul do Pará. Esperando por um barco, fui abordado por dois índios querendo me vender cocares com penas de araras. Eram cocares enormes, vistosos. Na conversa com os índios, que se vestiam de forma urbana, fiquei sabendo que estavam vendendo direto às pessoas porque a Funai (que comprava o artesanato) demorava muito a pagar, quando enfim pagava. E eles precisavam comprar “cartucho”. Pensei imediatamente num cartucho de impressora. Mas não era isso, eles me explicaram: precisavam comprar cartucho para as espingardas, porque estava cada vez mais difícil caçar as araras para tirar as penas e fazer os tais cocares. “As araras ficam cada vez mais alto nas castanheiras, difícil de acertar, a gente gasta muita bala”.
Pensei: Temos uma história ancestral e esses valores estão sendo repassados.

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O tempo não existe

Tempo

 

Hoje estava vindo pro trabalho e fiquei pensando no tempo, no tanto que damos importância a ele e o tanto que ele sacaneia com a gente. E, contudo, o tempo é algo que não existe, não é tangível, apesar de mensurável. É totalmente abstrato. E não venha me falar que se pode mostrar o tempo nos ponteiros de um relógio ou num calendário, porque isso é apenas uma representação gráfica, um mecanismo feito pelos homens para dar nome e forma ao algoz. E é impressionante como somos escravizados e angustiados pela pressão de fazermos algo antes que o nosso relógio pare de funcionar.

  
Tenho mais indagações sobre o tempo do que tempo para pensar nas respostas. E desde cedo essas questões me consumiam. Filmes sobre viagem no tempo me seduziram sempre – eu era guri e já babava frente à máquina que levava Jack o Estripador para uma Londres contemporânea. Ou noutro filme em que H. G. Wells era apresentado a mim como o inventor dessa máquina. Mais tarde, adolescente, De Volta para o Futuro foi o filme que mais vezes vi no cinema (sim, eu ficava de uma sessão para outra, durante vários dias, viajando com aquelas possibilidades). E, no entanto, viajar e voltar no tempo é apenas um desejo de ver as coisas solucionadas, as possibilidades que não experimentamos mas gostaríamos de ter, ao menos, provado o seu gosto.

A máquina do tempo é a metáfora perfeita para nosso revisionismo particular.

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Tempo de lamento

Quando chega ao fim um podcast, lamentamos. É um projeto que termina, por mil razões que nem se podem enumerar aqui. É triste. Mas sabemos que no fundo a ideia ainda está ali, latente. É quase como um período de descanso, uma pausa. Por mais que nunca volte, a possibilidade de retorno nos conforta.
Quando um podcaster chega ao fim é diferente. A ideia não está mais latente. Não é mais uma pausa. Não há a possibilidade de retorno.
Não sei das circunstancias de sua morte, se deixa filhos. Não fui atrás dos detalhes. Sei o que li e sei o que senti ao saber da noticia. É curioso isso, de se importar com alguém que não se conhece fisicamente. O podcast tem isso de nos aproximar, nos unir pela afinidade. E é então que nos sentimos amigos, companheiros, solidários.

Dias atrás, durante a gravação de um podcast, cheguei a achar que estava exagerando em minhas angústias com o tempo e de como ele é carrasco ao ditar o ritmo de nossas vidas modernas. Cheguei a pensar que eu talvez estivesse supervalorizando o tempo e sua tirania. Mas coisas assim, de surpresa, sem aviso, me levam novamente a pensar no tirano. No tempo que o Lucas ainda achava que tinha para os projetos que intentava realizar, nos planos que fazia para, sei lá, daqui a um ano. Um tempo que não existe. Que nunca existiu.

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Meu peito

Primeiro dia de natação (depois de 12 anos parado) e a professora me diz:
– Ricardo, agora quero ver seu peito.
Juro que pensei em mil piadas como resposta, mas não podia dizê-las. Faltava a intimidade necessária. Aí me controlei e fui mostrar como era meu nado estilo peito.
Ao final, mais uma pérola:
– Ricardo, seu peito é ótimo.
(E eu ali, tenso, me segurando…)

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